Fonte: Tarso Araujo. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Tarja Verde: cada vez mais pesquisas confirmam a utilidade da maconha para o tratamento de uma grande variedade de doenças. Apesar de a lei brasileira prever o uso medicinal, a falta de regulamentação impede sua aplicação no Brasil."
Aos 33 anos, recebi o diagnóstico bombástico: tinha um câncer no pescoço. Fiz uma cirurgia na semana seguinte e comecei a quimioterapia. Seriam oito sessões, e depois 25 de quimioterapia. Na segunda sessão, começou a cair o cabelo e vieram enjoos fortes. Na sexta, eu já vomitei antes de colocar o catéter com a medicação. Como eu não suportava, os médicos resolveram interromper a quimio. Na radioterapia, perdi todo o paladar, não conseguia me alimentar direito.
Foi quando tive a ideia de tentar a maconha e perguntei ao oncologista. Ele disse que não podia prescrever, que em países de primeiro mundo usam mesmo cannabis para atenuar esses sintomas. Já tinha fumado algumas vezes, mas esse tempo passou. Procurei amigos que ainda fumavam e comecei esse tratamento paralelo. Logo percebi mudanças: comecei a me alimentar melhor, dormia melhor, gradualmente até minha autoestima melhorou. Então decidi plantar no meu sítio sementes importadas, indicadas para uso medicinal. Era tão mais limpa que passei a fumar menos e comecei a usar em chás, bolos e outras receitas.
Um dia, sem mandado e na minha ausência, a polícia arrombou as portas e revirou minha propriedade. Não acharam armas nem dinheiro, mas furtaram coisas minhas e levaram os dez pés da maconha que aliviava meus sintomas. O delegado denunciou os policiais por abuso de autoridade. O Ministério Público não levou a acusação em frente, alegando que eles estavam cumprindo a sua função, mas me indiciou por tráfico!
O tratamento deu certo: segundo meus médicos, as chances de o câncer voltar são mínimas. Mas ainda respondo processo e posso acabar preso. Se a Constituição Federal diz que todo ser humano tem direito à dignidade, fico me perguntando por que o Estado, que deveria cuidar do meu bem-estar, é justamente quem me pune.
-- Alexandre Thomaz, 44, publicitário. Canoas (RS).